Malucas por Harry Potter
Harry Potter e o Cálice de Fogo
:: Sala das Profecias ::
O melhor filme e um livro maravilhoso

Eu tinha prometido escrever sobre o filme, mas a Karol já disse tudo de importante que eu tinha a dizer. Por isso vou falar muito brevemente sobre ele e completar a coluna com minhas impressões do livro.
O Filme
Adorei quase tudo, da trilha sonora, aos efeitos especiais, do ritmo alucinante à mescla entre suspense e humor, da ênfase maior à vida escolar à atuação dos jovens atores, que, no geral, melhorou bastante, com a exceção de Emma Watson. Esta, que era uma das minhas prediletas do elenco jovem, neste filme exagerou algumas cenas, tanto no tom de voz, quanto no contorcionismo facial. Em compensação, tivemos a oportunidade de ver melhor os demais atores, como Matt Lewis (Neville), que eu já achava excelente, mesmo aparecendo pouco, os gêmeos Oliver e James Phelps, que foram muito bem, e Bonnie Wright (Gina) que mostrou que está à altura do que se espera dela nos próximos filmes, principalmente se controlar a mania de entortar a boca.
O elenco adulto está maravilhoso, embora seja bastante controversa a atuação de Michael Gambon, como Dumbledore. Pessoalmente gosto dele e acho que certas mudanças no personagem eram nececessárias para transmitir a tensão do filme, mas concordo que isso é polêmico. Ainda quanto a Dumbledore, incomoda também a concepção visual dele nos dois últimos filmes, muito hippie e com uma aparência de sujo. Penso que seria melhor se não fosse assim.
Gostei do roteiro e acho que as coisas cortadas, no geral, não fazem falta, muitas inclusive ficariam grotescas na tela grande, como a língua imensa do Duda. Mas tem algo que realmente lamento que tenha saído, embora no calor do filme não tenha sentido sua falta. É o prêmio do tribruxo. Sem ele, fica meio bobo o próprio torneio. Por que todos estavam querendo tanto competir, inclusive os gêmeos e Rony? Só pela glória eterna? Não convence e elimina uma coisa importante que é o fato de Harry ter dado o dinheiro para os gêmeos. Importante para a loja deles, mas também para dar mais ênfase na generosidade e pouco apego às coisas materiais de Harry. Esta é uma característica importante do herói, que creio que terá relevância no final, pelas conversas entre Harry e Dumbledore no sexto livro.
Também ficou mal explicada a fuga de Crouch Jr. de Azkaban, uma prisão que deveria ser inexpugnável.
Do resto, não senti falta, nem dos elfos, nem dos Dursley, nem de Bagman, muito menos de Berta Jorkins, cuja importância desapareceu, com a modificação que houve no enredo.
Para finalizar, devo dizer que além de considerar este o melhor filme da série, foi também aquele em que pela primeira vez me senti realmente no universo de Harry Potter. Nos filmes do Columbus, via elementos do enredo, mas eles tiraram muito do que gosto em Harry Potter, em especial aquele humor meio anárquico, que se mescla o tempo todo com o mistério. São filmes muito lineares. Prisioneiro de Azkaban foi mais denso emocionalmente e mais engraçado também, mas o humor era de um tipo diferente do que há nos livros. Além disso, o filme ficou bastante confuso para quem não conhece a história. Cálice de Fogo, apesar de tão cortado, teve mais coerência e manteve o estilo de humor que me faz adorar os livros. Fui até ver de novo, coisa que nunca tinha feito antes com os filmes de Harry Potter. Nota? 9,5.
O Livro
Comentado o filme, vamos ao livro. É cada vez mais difícil para mim avaliar os livros de Harry Potter. Nestes últimos anos li tanto sobre eles, que já não fico tão surpreendida ao lê-los e isso prejudica a minha avaliação, mas tentarei, mesmo assim.
Uma coisa que torna a série de Harry Potter absolutamente única é o fato de que seus personagens crescem e amadurecem ao longo dela. Isso coloca em cada livro desafios emocionais diferentes. E em cada livro os personagens estão um pouco modificados. Mas não são apenas os personagens que mudam. A entrada em cena de um Voldemort de carne e osso mudou bastante o perfil dos livros.
Os quatro primeiros tinham uma estrutura bem definida: começam na rua dos Alfeneiros, passam por uma preparação para o ano letivo que virá, as crianças vão para Hogwarts, onde surge um desafio, geralmente algo misterioso. No final, a solução é algo bastante diferente do que a maioria dos leitores esperaria. Harry enfrenta o desafio, com maior ou menor sucesso, e no fim de tudo temos explicações de Dumbledore, festa de despedida, e volta à estação King’s Cross.
O livro cinco, embora mantenha muitos dos elementos acima, muda num ponto. Não há o suspense, a coisa misteriosa a ser desvendada que perpassa todos os anteriores. Vagamente há uma menção a uma arma, mas Harry e seus amigos não estão de fato tentando descobrir o que ela é. Na verdade, o que dá o tom do livro é a angústia e a sensação de isolamento de Harry, desacreditado pela imprensa e pelo Ministério. É muito mais um livro político do que de suspense. E boa parte do jogo político é feita de avanços e recuos, como a formação da AD ou a saída de cena de Dumbledore.
O livro seis foge bem mais ao estilo dos quatro primeiros. Há uma trama misteriosa, mas dessa vez, só Harry está interessado em desvendá-la, então ela fica em segundo plano. E o final é totalmente diferente do que sempre acontece. É surpreendente? Certamente, mas o é muito mais para quem é fã há tempos, acompanhou de perto toda a série e já tem uma opinião formada sobre os personagens, do que para alguém que leia só este livro.
Por isso, o seu ponto forte não é o suspense, muito menos a ação. Trata-se do livro mais centrado no desenvolvimento dos personagens de toda a série até aqui. Notamos uma mudança imensa em Harry, que se prepara para assumir realmente seu papel de grande herói. Ele se abre mais para o mundo, ao contrário do que poderíamos prever ao fim de Ordem da Fênix. Ele ouve mais, presta mais atenção no que está acontecendo com os amigos (pela primeira vez se mostra realmente interessado na interrelação de Rony e Hermione), assume uma posição de real liderança no quadribol (na verdade, já tinha começado a demonstrar capacidade de liderança na AD, mas ali a Hermione teve um papel fundamental também) e ao final demonstra capacidade de comando, deixando instruções antes de deixar seus amigos sozinhos no castelo. Já não tem medo das garotas e agora, ao invés de estar isolado, é assediado por todos os lados. Todos querem estar associados a ele. Apesar disso, ele nunca esteve tão só. Ninguém compartilha de seus receios, que não são infundados. E boa parte da jornada de aprendizado e amadurecimento que tem de enfrentar é feita sem a companhia de Rony e Hermione.
Não é só Harry que amadurece, Draco é outro personagem que se destaca em termos de crescimento. É fantástica a mudança que sofre ao longo do livro. O garoto dos outros livros e do início deste, que gosta de contar vantagens, vai aos poucos se tornando um jovem homem que tem que enfrentar tarefas extremamente difíceis e percebe que é muito mais fácil falar delas do que as cumprir. É como homem que enfrenta seus desafios e consegue superá-los ou não.
Rony é outro que passa por uma intensa jornada interior. Tem que se defrontar com seus próprios sentimentos e inseguranças com o sexo oposto e aos poucos vai aprendendo. Ao final parece já ser capaz de vir a ter uma relação adulta com uma mulher, depois de superadas as inseguranças juvenis.
Hermione, que estava superpoderosa em Ordem da Fênix, também se vê diante de situações que a desafiam enormemente. Harry já não aceita que ela se comporte como se fosse a mãe dele e a trata de modo mais igual. Não a obedece nem foge de suas admoestações. Simplesmente a enfrenta, sem discutir muito. E ela tem que aprender a conviver com o novo Harry e um Rony em processo de transformação, ambos a desafiando. As inseguranças da moça aparecem com toda a força e ela precisa buscar novas formas de atuar sobre elas.
Gina também aparece mais, agora como uma bruxa poderosa, engraçada e popular. Muitos reclamam que ela está uma “Ginny Sue”, quer dizer, insuportavelmente perfeita. Discordo disso. Gina é um dos personagens de que mais gosto e acho que estamos começando a ver como ela realmente é. Até Cálice, só tínhamos pequenas pistas, já que a paixonite infantil que tinha por Harry a mantinha afastada dele e é o ponto de vista de Harry o que predomina. Na verdade, isso é um problema, pois na falta de maior conhecimento sobre ela, criaram-se muitas versões diferentes da moça nas fanfics e entre os fãs em geral. Há a Gina mimada, a tímida, a teimosa, a impulsiva, a sexy, e muitas outras, nenhuma com base nos livros. A verdadeira Gina é relativamente reservada, marcada que foi pela sua experiência com o diário de Riddle. Gosta de fazer piadas e é muito mais a irmã dos gêmeos que a de Percy ( notem que ela não vira monitora). Não leva desaforos para casa, mas não quer dizer que seja impulsiva, pois sabe bem o que quer. Defende seus pontos de vista com convicção, mas nunca com teimosia ou sermões. Não permite que os seus amigos se diminuam ( não deixa que Neville diga que não é ninguém no livro anterior e neste não deixa que caçoem da Luna). E certamente tem seus defeitos: não parece ser uma estudante muito dedicada e quando implica com alguém, é melhor sair de baixo, pois vem com tudo. No entanto, apesar de mais presente, ela ainda aparece menos que o trio e não dá para saber de fato que características dela surgem de um processo de amadurecimento, como o que ocorre com os outros, ou o que são traços que sempre existiram e apenas não conhecíamos, nem nós, nem o Harry.
Outro personagem que passamos a conhecer melhor é Tom Riddle, cujo percurso para se tornar Lord Voldemort acompanhamos, e também há um mergulho nas características dele e em sua evolução.
Por fim, em todo essa jornada de Harry para se tornar um homem, aprender sobre o amor é algo necessário, e esse é um tema muito presente no livro, em muitas formas diferentes: o amor doentio que faz uso de poções de amor, a mera atração física e desejo sexual, o amor não correspondido, aquele que é posto à prova por dificuldades imensas enfrentadas em conjunto, o amor fundado em compartilhar convicções, gostos e respeito. Enfim há muitos exemplos, envolvendo muitos personagens diferentes. O romance é muito bem desenvolvido, principalmente a parte que envolve Harry, que é engraçada para as crianças e sexy para os adultos.
Fundado no amor, o clima do livro é mais leve do que o de Ordem da Fênix, apesar da guerra aberta. Isso porque a guerra está fora de Hogwarts a maior parte do tempo e Harry não está de fato pensando tanto nela. Voldemort, surpreendentemente, o deixa de lado. A cicatriz não incomoda mais o menino que sobreviveu. Em compensação, quando a guerra chega à escola é terrível e deixa muitos fãs profundamente emocionados e deprimidos. O humor está sempre presente, como nos demais livros, mas acho que neste a autora se superou, nos fazendo rir mais do que nunca. A ação fica reservada a poucos capítulos no final, e este é um dos aspectos em que se parece com os primeiros livros.
Para terminar, devo dizer que é um dos meus livros favoritos da série, mas tenho a impressão de que ainda prefiro Azkaban. Talvez, como disse no início, pelo fato de estar tão enfronhada na história que não me deixo surpreender com tanta facilidade. Realmente, o final, que deixou todo mundo chocado, não me pegou nem um pouco de surpresa. Já esperava por algo assim desde o início do livro.
Fico por aqui e na próxima coluna enfrentarei os spoilers com tudo. Espero que até lá vocês já tenham terminado a leitura.

Por Lilyp
página 6